Doutor, então é isso mesmo, meu coração está fraco e insuficiente? Então eu estou morrendo?

Na minha época de ginasiano, obter uma nota ou grau final de insuficiente – o famoso conceito I -, significava estar reprovado ou, na melhor das hipóteses, em segunda época. Era algo bem sério. Acho que todos na meia-idade ou como idosos ainda lembram bem disso.

Vamos então imaginar, o que deve passar pela mente de um paciente que ouve de um médico que o seu querido e único coração (não temos sobressalente!) está insuficiente. Ele(a) sabe que só tem um único e querido coração e que se esse coração parar ele(a) vai morrer. Pior, agora acaba de saber, da voz do médico que ele(a) tanto confia, que esse seu coração não está mais suficiente e que foi avaliado com um conceito I.

Não vou propor que o seu médico tente lhe enganar. Pelo contrário! Mas vou sugerir que o médico explique, didaticamente, que “insuficiência cardíaca” é, na verdade, uma força de expressão e não quer dizer que o coração não está mais batendo ou que é completamente insuficiente como bomba. É importante entender que a insuficiência cardíaca tem vários graus e até nos níveis mais debilitantes ou graves, isso não significa, obrigatoriamente, uma sentença de morte imediata.

É importante ainda reconhecer que o coração é um músculo e que mesmo parcialmente danificado, ele continua a funcionar. Mas o mais importante é aprender que, como qualquer músculo, o coração é treinável com exercício. Na realidade, dezenas de pesquisas científicas realizadas nas últimas décadas tem contribuído para a revisão de conceitos antigos na Medicina.

No passado, quase que por definição, pacientes com insuficiência cardíaca eram considerados cardiopatas graves e recomendávamos a manter um repouso relativo e a não se exercitar. Revendo a história de algumas décadas em poucos instantes, isso mudou radicalmente. Hoje, em dia, na boa prática médica, além da medicações e tratamentos disponíveis que devem ser usados de forma séria, a recomendação é outra: os pacientes com insuficiência cardíaca PRECISAM e DEVEM se exercitar.

É simples de entender. Imagine um paciente que “perdeu” vinte por cento da funcionalidade do músculo cardíaco por conta de um infarto. Se os 80% restantes forem “musculados” pelo tratamento e exercícios adequados, ao final de algum tempo podemos ter uma melhora de, hipoteticamente, 10 a 25%. Ora, 25% de ganho sobre 80%, como ensina a boa matemática, vão dar 100% e aí teremos um bombeamento cardíaco bem próximo ao original.

E ainda tem muitas outras vantagens em exercitar – com a combinação de exercícios aeróbicos e resistidos – o paciente com insuficiência cardíaca. O corpo humano fisicamente treinado fica mais eficiente como máquina. Isso é, demanda menos energia (e naturalmente exige menos do bombeamento cardíaco) para fazer um dado movimento ou esforço.

Então, em síntese, o paciente com insuficiência cardíaca poderá se beneficiar do exercício regular por dois mecanismos: o coração retoma parte de sua vitalidade de bombeamento e o corpo passa a exigir menos bombeamento para fazer as mesmas ações. Dessa forma, muitos pacientes com insuficiência cardíaca podem preservar sua qualidade de vida e manter suas atividades cotidianas (alguns chegam até a correr!).

Portanto, não se esqueça de na consulta, pedir ao seu médico todas as devidas explicações para as importantes e necessárias medicações que lhe estão sendo prescritas, mas também, buscar a orientação sobre como incorporar atitudes saudáveis e, principalmente, o exercício físico regular no tratamento da sua insuficiência cardíaca. Seja menos um sedentário e mais um exercitante!

Claudio Gil Soares de Araújo

(Diretor de Pesquisa e Educação da Clínica de Medicina do Exercício – CLINIMEX – Rio de Janeiro, RJ, Brasil).

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